O primeiro capítulo da longa série “Zero Woman” é um pink film especialmente sangrento, mas nem por isso muito consistente. Aqui a Zero Woman corresponde a uma agente especial da polícia que se vê encarcerada devido aos seus métodos ultra-violentos e que, logo de seguida, é libertada na condição de os usar para resolver um rapto que pode comprometer um político poderoso. Interessante é reparar em como a polícia neste caso parece tão capaz de cometer maldades como os próprios rufiais raptores. Em diferentes momentos são os próprios personagens que colocam a pergunta: “Mas como podes ser mau sendo polícia?”. Não é uma questão para a qual a consciência encontre uma resposta fácil e muito menos enquanto corpos esguicham sangue ou são torturados.
Uma vez mais um mero exploitation japonês faz desaparecer a fronteira entre os bons e os maus e obriga-nos a reflectir sobre quem está realmente de um lado ou doutro (digam-me que blockbuster actual não determina isso logo no poster ou em vinte minutos). Contudo o mais provável é darmos por nós a torcer pela anti-heroína do título, que asfixia os seus opositores (sejam homens ou mulheres) com umas algemas vermelhas dominadas com capacidades sobrenaturais. Isto é subversão ao seu melhor nível e o exploitation nipónico emprega-a com uma complexidade e uma inteligência que muitas vezes escapam aos seus homólogos norte-americanos (bem mais directos e óbvios nas intenções).
A complexidade de “Zero Woman: Red Handcuffs” leva-o, em último caso, a dispersar-se por cenas de acção, drama, intriga e até umas quantas que chamam pelo fantástico, e por isso o filme mais se parece com uma amálgama do que com um corpo coeso. O facto de intercalar momentos de pura excitação com outros mais amolecidos também lhe retira algum equilíbrio. Mas este furacão de ideias é expectável neste tipo de cinema mais marginal e bizarro vindo do Japão. Talvez o principal problema de “Zero Woman: Red Handcuffs” seja a fúria com que deseja ser tudo em simultâneo. Porém nada disso o impede de ser obrigatório para quem quiser saber mais sobre as fontes onde Luc Besson e Tarantino foram beber para criar os seus respectivos “La Femme Nikita” e “Kill Bill”.