Who Can Kill a Child? (1976)

Terão sido inúmeras as ocasiões em que o cinema representou o indivíduo como o símbolo dos mais diversos crimes cometidos pela humanidade. Essa transposição de responsabilidades acontece com especial enfâse na década de 70 (principalmente no cinema norte-americano). Foi certamente esse o período em que os filmes mais se predispuseram a uma revisão de consciência, em tudo ligada às atrocidades que haviam sido cometidas nas muitas guerras e conflitos dos últimos trinta anos.

Ao estrear em meados dessa década, no ano de 1976, “Who can kill a child?” aproxima-se de tantos outros contemporâneos, que assumiram e revolveram as culpas do homem, mas tem qualquer coisa que o distingue de todos esses. Essa qualidade única deste curioso filme espanhol surpreende-nos, logo de imediato, ao alternar os créditos iniciais com narrações de guerras várias acompanhadas por imagens de crianças num sofrimento agonizante. Não me lembro agora de outra longa que tenha decidido tão cedo confrontar o seu público de um modo tão brutal e manifestamente prolongado. Mas o que muito facilmente poderia ser uma decisão gratuita e até sádica, por parte dos seus pensadores, acaba por ir encontrando uma justificação na restante duração de “Who can kill a child?”. Se o seu arranque nos sufoca com a noção de que milhões de crianças já morreram às mãos do homem, tudo o resto assenta numa narrativa minimalista (um casal inglês de férias dá por si numa misteriosa ilha dominada por crianças) altamente propícia às mais variadas linhas de reflexão (ética, o peso da história, o conflito entre gerações, etc.).

Não era agora possível perseguir algumas das ideias propostas pelo filme, sem revelar demasiado sobre o mesmo. Mas reparem, por exemplo, em como a sua direcção muda com as acções do protagonista (o homem Tom), ou na importância dos fogos de artifícios e demais explosivos presentes nas fiestas do primeiro terço de filme (como se esses fossem ecos de guerras difíceis de esquecer mesmo em tempos de celebração). “Who can kill a child?” não só coloca as suas questões de forma subtil e inteligente, como também garante todo o tempo para que essas possam pairar e crescer numa atmosfera assombrosa extremamente bem conseguida. Uma atmosfera que não se acanha sequer de conjugar à sua maneira pistas avançadas por filmes que, tal como este, eram dominados pelo medo. Não é portanto de estranhar que se identifiquem por aqui alguns tons e resquícios de “Rosemary’s Baby” (a semente malévola), “The Spirit of the Beehive” (também espanhol) e “Jaws” (principalmente na banda-sonora de Waldo De Los Rios). Todos enriquecem “Who can kill a child?” de alguma maneira e estranhamente ajudam a que seja um dos verdadeiros originais da muito fértil década de 70.

8/10