Trick Baby (1972)

Os factores que remetem um filme para o esquecimento podem ser os mais diversos. E quando esses factores se acumulam, muito facilmente um óptimo filme permanece na sombra de outros que tiveram melhor sorte (mesmo sendo inferiores). São discutíveis os azares que terão feito de “Trick Baby” um filme algo esquecido no tempo, mas arriscaria dois: 1) a ausência de nomes populares na realização tal como nos principais papéis (alguém já ouviu por acaso falar de Larry Yust, Kiel Martin ou Mel Stewart?); 2) a sensação de que todo o embrulho (posters, stills) faz crer que se trata de um blaxploitation, quando afinal está bem longe disso. “Trick Baby” é sim, e contra todas as expectativas, um tremendo filme de acção tão capaz de nos envolver na sua intensa dinâmica de personagens, como de nos fazer seguir algumas das suas pistas de reflexão (várias dessas ligadas a questões raciais tão pertinentes na altura como hoje).

O realizador Larry Yust aborda uma história sobre o fluxo da sorte e do azar desenvolvendo ele próprio um flow de rua, que nos mantém num profundo “Philadelphia state of mind” durante hora e meia (ou não fosse “Trick Baby” adaptado de um livro de Iceberg Slim, um dos autores que mais inspirou a lírica de rappers como Nas ou Jay-Z). O ritmo desta pequena jóia de 72 é aliás tão contagiante que por vezes quase apetece dançar ao sabor da sua edição frenética (reparem na alternância entre o jogo de poker e o jogo de interesses no jantar de ricos) e da fantástica banda-sonora a cargo de James Bond (espião de dia, compositor de noite?). Tudo o resto que há para saber sobre “Trick Baby” é para ser descoberto por cada um. Fica a recomendação.

8/10