The World, the Flesh and the Devil (1959)

É bom reparar em como um filme mal recebido na estreia pode, aos poucos, ir encontrando um público que lhe atribua o merecido valor. Ao que parece, “The World, The Flesh and the Devil” não foi especialmente reconhecido ao estrear em 1959 e obteve lucros modestos. A explicação para isso pode passar pela atribuição do principal papel a Harry Belafonte que, apesar da imensa popularidade arrecadada sobretudo na música, não estaria certamente ao nível de um Cary Grant. Mas o que mais afastou o filme de uma recepção calorosa terá sido porventura a ousadia com que se compromete a fazer pensar muito mais do que entreter. E esta chamada à reflexão acontece inclusivamente num cenário já de si pouco animador: o mundo enfrenta um novo apocalipse e o único sobrevivente é (será?) um mineiro que se encontrava no subsolo quando o resto da população morreu.

Ao apostar num cenário tão desolador, “The World, The Flesh and the Devil” arriscava-se naturalmente a alienar muita gente e a dar uns quantos pontapés na lógica (mesmo sendo esse um mal menor num sci-fi). Isso fragiliza-o ao ser visto hoje? Nem pensar. Assim acontece muito por causa de um impressionante trabalho visual, que ultrapassa quase por completo as limitações técnicas de 1959 e, durante largos minutos, nos convence de que estamos a olhar para Nova Iorque com um só habitante. Não há realmente palavras para um filme que consegue esse “milagre” muito antes de se ter instalado o domínio dos muito mais aborrecidos efeitos visuais digitais. A produção da MGM é de tal modo avassaladora nesse aspecto que até se lhe perdoa um segundo acto com umas poucas questões raciais algo datadas (talvez pertinentes na altura). “The World, The Flesh and the Devil” merece por isso um destaque muito maior nessa ramificação do cinema de ficção-científica que é o filme pós-apocalíptico.

8/10