The State of Things (1982)

É curioso reparar em como os filmes com maiores pretensões artísticas são muitas vezes os mais facilmente atraiçoados por si próprios. Repare-se, por exemplo, como Wim Wenders pretendia fazer de “The State of Things” um meta-filme que afinal ficou mais perto de ser um merda-filme. É esse pois o risco que corre um exercício arty sobre o aborrecimento que, por azar ou simples caguice, acaba por se tornar num monumento ao próprio aborrecimento (Sofia Coppola caiu numa armadilha semelhante com o seu “Somewhere”). “The State of Things” é tão escasso em ideias bem articuladas que uma pessoa quase desespera por um diálogo de jeito (fartei-me de imaginar o meu amigo Gama a dormir durante todo o filme). Depois há também que sofrer durante as várias cenas em que Patrick Bachau, no papel do realizador iludido, faz um frete enorme para terminar as suas frases. Não admira que tenha uma carreira recheada de papéis secundários em filmes pouco aconselháveis.

Mas nem tudo é mau e “The State of Things” mostra imagens de Samuel Fuller a beber copos no Cais do Sodré (grande parte do filme foi rodado em Portugal e isso, vá lá, dá-lhe um valor curioso). A luva de Artur Semedo tem também direito a um rápido cameo. Quando o filme se muda de Sintra para Los Angeles, Wim Wenders tem a súbita ideia de ir buscar uns quantos aspectos de “The Killing of a chinese bookie” para tentar remediar este seu jogo de espelhos, mas, nessa altura, já é tarde demais. E é assim que “The State of Things” morre na condição do filme chato que podia ter sido bem melhor. Custa a crer que Wim Wenders tenha feito “Paris, Texas” (O Melodrama) apenas dois anos depois.

3/10