Estreado em 1960, “The Savage Innocents” representa bem um tempo em que o cinema podia criar a sua versão fantasiosa de diferentes realidades sem enfrentar os defensores da veracidade histórica ou do politicamente correcto. Tais tempos bem mais ingénuos alimentavam naturalmente um público mais interessado em acreditar na mentira mágica dos filmes do que em sujeitá-la a um escrutínio cheio de motivos (“doença” que ter-se-á instalado algures nos anos noventa). Tal conjugação de factores levou a que, em “The Savage Innocents”, o realizador Nicholas Ray retratasse a vida e os hábitos dos esquimós recorrendo a múltiplos estereótipos que, sem surpresa, procuram muito mais entreter do que apresentar uma visão rigorosa desse povo. São essas algumas das liberdades aqui invocadas por um realizador que tantas vezes preferiu o delírio technicolorizado em vez da seriedade mais monótona.
Esse tipo de abordagem cândida e pronta a divertir contribui para que, além de visualmente espectacular, o filme seja enternecedor e até mesmo adorável, apesar da abundante quantidade de cenas de violência latente e explícita (desde as danças cheias de tensão à matança de focas bebé). Avaliá-lo tendo presente tudo o que mudou, em quase sessenta anos, será só mesmo o primeiro passo para resistir aos muitos gozos deste peculiar western transposto para o Pólo Norte. “The Savage Innocents” tem o charme dos documentos de época e conta com o enorme Anthony Quinn no papel do principal esquimó. Inspirou uma canção de Bob Dylan (“The Mighty Quinn (Quinn the Eskimo)”) e o Bob Dylan só gosta de filmes bons.