The Chocolate War (1988)

Serão dois os principais factores para que a reputação de “The Chocolate War” seja ainda hoje bastante modesta: 1) o seu elenco não tem estrelas evidentes; 2) o retrato que faz da experiência juvenil americana pouco tem da ligeireza de John Hughes ou de tantas outras comédias que comparam essa idade a um passeio de domingo. Os míseros resultados comerciais obtidos por “The Chocolate War” (300 mil dólares?!) reflectem, por sua vez, uma fraca promoção da MGM (o seu estúdio) ou a aversão do público americano a um filme que – surgido num tempo aparentemente descontraído (1988) – em nada se acanhou de expor a crueldade e a angústia que podem existir no meio académico e seus respectivos rituais. Adaptado de um livro homónimo de Robert Cromier, “The Chocolate War” distingue-se portanto por ser duro e, mesmo assim, suficientemente cauteloso e subtil para não resvalar para o terreno do drama perturbante.

O realizador Keith Gordon, ao extrair do seu elenco um enorme rendimento carismático, transforma um pretexto algo absurdo (uma venda de chocolates) num tópico capaz de suscitar reflexões sobre uma variedade incrível de aspectos: dignidade, adaptação social, integridade, ser ovelha ou não. Quem alguma vez frequentou uma escola mais ou menos “fechada” rever-se-á certamente em “The Chocolate War”, que – feitas as contas – merece alguma consideração enquanto antecedente de filmes bem mais populares como “O Clube dos Poetas Mortos”, “Election” ou “The Social Network”. Todos lhe devem qualquer coisa e nenhum lhe pagou. Além de tudo isto, “The Chocolate War” utiliza as várias canções da sua banda-sonora com um precisão e inteligência que fazem o filme valer a pena só mesmo por isso (repare-se numa faixa de Yazoo que estende a passadeira a boa parte da música sufocante que Trent Reznor e Atticus Ross gravaram para “The Social Network”). “The Chocolate War” foi uma enorme surpresa e já conquistou o seu lugar entre os meus filmes favoritos da década de oitenta.

9/10