O nome de Michael Winner ficará para sempre colado a um conjunto de seis filmes em que dirigiu Charles Bronson, à medida em que este cada vez mais assumia a figura da verdadeira máquina de matar (desde o aconselhável “Chato’s Land, em 1972, até “Death Wish III”, em 1985). Foi essa a parceria que os uniu nos primeiros três capítulos da saga “Death Wish”, que ainda hoje será uma referência inevitável quando se fala da violência desmedida dos filmes de vigilante. Por ser tão icónica, a história do primeiro “Death Wish” é mais ou menos conhecida até por quem nunca assistiu ao filme: depois da sua mulher ter sido morta por uns rufias, o arquitecto Paul Kersey transforma-se no justiceiro obrigado a varrer as ruas porque ninguém mais o faz (de certa maneira recorrendo a isso também como terapia para o trauma da sua perda). Estamos na América.
Se isso justifica ou não a matança que vai aumentando de episódio para episódio, na escala infernal de “Death Wish”, será sobretudo uma questão de gosto e da capacidade individual de deixar a ética à porta desta ficção mais exagerada. Sabemos, contudo, que a década de setenta foi especialmente prolífica em violência, se pensarmos em “Straw Dogs”(1971) ou “Deliverance” (1972), apenas como alguns dos seus exemplos mais visíveis. Resumir o trabalho de Winner, pela sua associação a Bronson, a um cliché de cinema de acção – assente num homem de bigode a disparar sobre punks – é que me parece ser mais um dos vícios míopes por parte da crítica de nariz empinado (aquela que nunca encontra defeitos em Bergman e enaltece filmes bem chatos da “nouvelle vague”).
Dedicar algum tempo a Michael Winner (acompanhado por Bronson ou não) leva a umas quantas descobertas que contrariam precisamente essa apreciação mais snob da sua obra: o seu cinema é geralmente cativante, intenso, descomplexado e carregado de estilo (“The Sentinel”(1977), rara incursão sua no terror, não é o melhor herdeiro de “Rosemary’s Baby”, mas tem imagens fantásticas). E é aqui que chegamos a “Scorpio”, que, passando talvez despercebido entre os muitos filmes de espionagem da sua época, expõe e sublinha as principais qualidades de Michael Winner. “Scorpio” não só exibe a intensidade e o estilo já referidos (afinal haverá aqui uma coesão de autor?), como ainda nos arrebata com um ritmo de cavalão imparável, durante uma intriga internacional de quase duas horas.
É que, mesmo sem escapar a um par de momentos datados e algo risíveis (esperem até ver um actor respeitadíssimo em modo “black face”), este thriller de perseguição constante conta com dois colossais actores – Burt Lancaster e Alain Delon – que chegam para camuflar todo o tipo de imperfeições. Aqui temos portanto um imponente e subestimadíssimo filme de espionagem realizado por um senhor de má fama e protagonizado por dois figurões incontestáveis do cinema. “Scorpio” tem o tiro fácil e injustificado de “Death Wish”. Tem coisas mal explicadas e alguma dose de misoginia. Porém nem todos os filmes podem obedecer ao politicamente correcto e servir as funções mais nobres da Arte. Michael Winner fez alguns dos seus melhores filmes quando se marimbou para isso tudo.