Presumo que, em 1969, fosse algo chocante abordar o tema da submissão de um modo tão descarado como o que se verifica em “Scacco alla regina”. O realizador Pasquale Festa Campanile (adoro o nome) elabora até um arranque cativante com esta história de submissão enquanto experiência social de transformação. Recapitulando: existe uma protagonista vagamente parecida com Britney Spears que é obrigada a servir incondicionalmente a sua patroa riquíssima. Encontrar este tipo de subserviência num filme italiano lembrou-me de “Salò”, de Pasolini, e o mistério entre as duas mulheres sugeriu-me qualquer coisa de “Mulholland Dr.”, de Lynch (até porque ambos são dominados por dois personagens femininos).
Isto significa talvez que a minha cabeça recupera excelentes filmes para melhor lidar com um outro terrível, e “Scacco alla regina” recai infelizmente na última categoria por inúmeros motivos. Custa-me, em primeiro lugar, aceitar que uma peça de erotismo italiano não provoque mais titilação que uma qualquer parte da saga “Academia de Polícia”. Não entendo também muito bem como pode o tema do sadomasoquismo ser tratado com tamanho aborrecimento e morrer depois de fadiga numa narrativa que nunca sai do mesmo tapete rolante. Entretanto adormeci por volta dos sessenta minutos e tive de voltar um pouco atrás no filme. A melhor cena de “Scacco alla regina” envolve um cavalo-elétrico a ser montado e só isso diz muita coisa. A música de Piero Piccioni (um dos mestres da banda-sonora escaldante) salvaria uma divisão desta casa a arder se o tema principal não fosse repetido pelo menos dez vezes. Por vezes aventuro-me no obscuro e trago de lá peixes podres como este.