Manos: The Hands of Fate (1966)

Tinha planeado ontem ver “O Fim da Inocência”, do Joaquim Leitão, que realizou dois dos piores filmes que vi na vida: “Tentação” e mais recentemente “Sei lá”. Confesso que há uma sensação de desastre e embaraço no cinema de Joaquim Leitão que satisfaz os meus gostos mais mórbidos. Contudo não sinto qualquer culpa em ver “Sei lá”, porque me diverte como as páginas da “Revista Maria” reservadas ao diário dela e dele. A sinopse de “O Fim da Inocência” prometia uma juventude mergulhada em jogos sexuais arriscados e consumo de drogas na noite de Lisboa. Esfreguei as mãos na antecipação de ver o filme que completaria a minha trilogia de valentes merdas assinadas pelo Joaquim Leitão. Todas essas esperanças foram arruinadas por uma “dificuldade técnica” que sabotou este capricho. “O Fim da Inocência” ficou adiado.

Mas esfomeado por trash, decidir procurar isso mesmo e ocorreu-me a hipótese “Manos: The Hands of Fate”. Primeiro porque tinha encontrado a banda-sonora à venda na curiosa editora Ship to Shore Phonograph Co. e segundo porque vi, ao longo do tempo, o filme ser várias vezes referido como o pior de sempre. E esse é um estatuto que me provoca tanta desconfiança como curiosidade. Seria este “Manos” capaz de ser ainda pior que “The Fountain” ou “Fifty Shades of Grey”? Ou ainda mais grave que isso: poderia este filme ser mais chato que um desses dois colossos do aborrecimento? A que minuto adormeceria Gama no sofá ao ver “Manos: The Hands of Fate”? São questões complexas para as quais dificilmente obteremos respostas. Atrevo-me porém a resolver uma delas sem rodeios ou hesitações: “Manos: The Hands of Fate” pode até ser um fraquíssimo e embaraçoso espécime de “cinema”, mas não é de todo mais chato que os seus rivais nas contas deste parágrafo.

Na verdade “Manos” revela, logo de início, um conjunto de imperfeições tão distinto e convulso, que o mais certo é obter as mais diversas reações por parte de quem vê (um pouco como um velho a mijar dentro de uma missa levaria a diferentes atitudes daqueles em seu redor). A minha adaptação ao aspecto aberrante de “Manos” levou-me primeiro à surpresa, depois ao riso e a certa altura ao incómodo. Há quem diga que não é fácil chegar a um tom tão desafinado como o de Zé Cabra a cantar. Acredito que, de modo semelhante, também não seja propriamente fácil chegar a algo tão tosco e tremendamente desastrado como esta “coisa” que só tangencialmente passa por filme.

Por onde começar na enumeração das mais sofríveis características de “Manos”? Talvez pela sua montagem estonteante que repete frases, viola constantemente as leis da continuidade e gera enorme confusão. Porém a “confusão” (de mãos dadas com a desorientação) é um factor permanente nesta história de uma família banal confrontada com um cenário sobrenatural – um culto diabólico ou sei lá – num casebre do deserto de El Paso. Para o crescendo da confusão contribuem, de igual modo, as péssimas dobragens, os sets mal iluminados, a total ausência de capacidade dramática do elenco, a maquilhagem incompleta do vilão e uma banda-sonora jazz que representa uma verdadeira dor de cabeça.

Como se isso não bastasse, há no centro da “narrativa” um lacaio freak chamado Torgo que tem uma presença e um andar impossíveis de verbalizar. Não me lembro agora de ver num filme uma figura tão bizarra quanto esta. Se nada vos ocorreu como ideia para reagir a um velho a mijar na missa, é bem provável que vos escape também uma solução para processar Torgo. Eu desisti, mesmo que quase tudo em “Manos: The Hands of Fate” seja um convite à desistência: nomeadamente as muitas ocasiões em que os mosquitos de El Paso passam diante da câmara, talvez atraídos pelo odor da fita no seu interior.

Assustado com tudo isto, diria que passei uns quarenta minutos sem me rir após um início mais animado. Só perto do fim voltei a rir quando a criança da família pergunta pelo cão desaparecido, com uma voz que parece pertencer a uma adulta a tentar simular voz de menina, mas que soa só mesmo a uma mulher em sofrimento. O efeito seria apenas sinistro se não viesse de um personagem que reage a um acontecimento de há muitos minutos atrás, como se tivesse estado a dormir desde aí (o que não acontece na realidade). Ri-me por ver como aquela miúda tinha sido capaz de se alienar do próprio péssimo filme em que estava metida. Uma parte de nós chegará frustrada a esse momento por não ter feito o mesmo.

2/10