Letter Never Sent (1960)

É a mais velha história do mundo: quando o homem procura um lugar na história com uma ambição cega, arrisca-se a competir contra os seus próprios limites. “Letter Never Sent” aborda essa mesma história intemporal com uma categórica noção de atmosfera. A criação dessa mesma atmosfera é conseguida muito à custa do trabalho fotográfico de Sergey Urusevskiy, que consegue ser imaginativo e por vezes delirante (vejam-se as sobreposições), embora sem nunca deixar de contribuir para a narrativa. Mas só isso não bastaria para que “Letter Never Sent” deixe bem vincada a sua marca (não sou pessoa para gostar de um filme só porque tem uma “óptima fotografia”). Os méritos do filme russo vão muito além da sua opulência visual. O que de início até podia ser um documento de propaganda soviética, em honra dos pioneiros e dos trabalhadores, ultrapassa largamente esse papel ao tratar-se principalmente de uma história universal sobre a auto-superação e a enorme quantidade de factores incontroláveis que podem afectá-la. “Letter Never Sent” é uma preciosa peça de cinema “no limite” e desenvolve alguns aspectos que encaixam bem numa linha de antecedentes de dois dos meus filmes favoritos: “Straw Dogs” e “Deliverance”. Altamente recomendado.

9/10