O castigo de ver “Fifty Shades of Grey” é apenas merecido, quando alguém perde duas horas da sua vida com tal filme por acreditar de alguma maneira na sua relevância cultural pop. Achava eu que ver o original podia ajudar-me a entender melhor as mil paródias de que irá ser alvo, mas fui surpreendido ao perceber que “Fifty Shades of Grey” é a paródia de si mesmo e dispensa por isso toda a chacota posterior. São poucos os filmes que se predispõem assim à auto-humilhação e não percebo se essa decisão está conceptualmente ligada ao tema deste fenómeno.
Comecemos então pela sinopse: ela procura um amor verdadeiro e viver o conto de fadas, ele procura obediência e um escape para a exigente vida empresarial. Ele sofre de um bloqueio afectivo, ela pode eventualmente ser a chave para o desbloqueio. Pelo meio de tudo isto ele cultiva um enorme gosto por sadomasoquismo e submissão (redige um contrato até), mesmo que essas experiências sejam retratadas no filme como uma viagem no carrocel mais fofinho da Disneyland Paris. É que nem as mais fortes cenas de “Fifty Shades of Grey” chegam a ter uma réstia da excitação de “Space Mountain” ou da Casa Assombrada. Quanto muito parecem um passeio no “It’s a small world after all”, mas ainda mais limpinho e sem os salpicos que por vezes se apanham nessas andanças. Estava condenado a isso um filme que parece ter sido adaptado a partir de uma imaginária balada da Celine Dion que por acaso envolve um milionário com apetites supostamente kinky.
Mas onde está afinal o kinky? É esse o jogo, ao estilo de “Onde está o Wally?”, que nos faz ficar a olhar para este exemplo doloroso de anti-clímax. O Sr. Grey podia confessar-se ao mais impressionável dos padres e ouvir apenas qualquer coisa como “Ó amigo, vá lá beber uma cervejinha e não pense mais nisso…”. O maior pecado cometido pelo Sr. Grey fica a cargo do seu intérprete Jamie Dornan, que dispõe de todo o tempo para nos impressionar com as cinquenta tonalidades dramáticas de um extintor (o fantástico acontece quando a sua expressão muda numa cena em que está a pilotar um avião e faz cara de parvo). Entretanto comecei a bater com as mãos na barriga, como quem toca tambor, na esperança de que isso me ajudasse a suportar os 50 minutos que ainda restavam de filme. Quase tudo é mais empolgante do que “Fifty Shades of Grey” excepto talvez acordar num dia de frio e chuva para ir trabalhar. É bem provável que esteja aqui a morte do filme erótico.