Olhando para os ingredientes que compõem “Female Convict 101: Sucks” (mulheres na prisão, exploitation q.b.), poderíamos acreditar que se tratava de mais um filme feito apenas de espalhafato, sensacionalismo e semelhantes. Mas se há um género capaz de superar tudo o que se espera dos seus filmes é o pink eiga japonês, que nunca se acanha ao combinar, de modo imaginativo e original, diferentes imaginários com fortíssimas cenas de sexo. “Female Convict 101: Sucks” não só é um pink eiga excepcional (uma vez mais da Nikkatsu), como também uma prodigiosa prova da capacidade estimulante da linguagem cinematográfica.
Quando a fórmula do filme de “women in prison” (WIP) não será certamente a mais versátil e aberta à reinvenção, Kôyû Ohara, com este pink, espairece-a e dilata-a através de ideias incomuns neste universo. Se estávamos habituados aos filmes de WIP, em que Pam Grier e outras bravas viviam encarceradas nos infernos concebidos pelo produtor Roger Corman, o que aqui acontece é bastante diferente: a verdadeira prisão é aquela que persegue a alma, independentemente do seu veículo corpóreo estar ou não entre as grades (e boa parte da acção decorre fora delas, desafiando assim as convenções do género).
As mulheres de “Female Convict 101: Sucks” estão muito mais presas a uma necessidade sufocante de amor, que vai sendo continuamente perturbada pelas emoções muito convulsas vividas nos irrequietos anos 70 (pano de fundo ideal para dramas fodidos). Por mais violentos que sejam os castigos infligidos a estas mulheres na prisão, o inferno associado ao amor, vivido nos muitos flashbacks, leva a um sofrimento tão ou mais penoso que o ataque físico ou o isolamento. A protagonista (interpretada com classe pelo ícone Naomi Tani) vê-se impossibilitada de estabilizar uma relação com um cantor folk muito por causa de um passado algo obscuro de prostituta (dotada de uma habilidade especial que nunca chega a ser totalmente revelada). É ela que diz “Love is hell no matter what”, quando pouca importa se isso foi pronuncionado fora ou dentro da prisão, já que o filme elminou essas barreiras há muito.
Uma das secundárias vive as suas próprias lutas (não menos importantes) ao procurar conforto numa relação lésbica cheia de desespero e acidentes. Não é por acaso que esta última e a protagonista, a certa altura, se vêm algemadas uma à outra, já que ambas estão igualmente presas às mesmas maldições e estigmas provocados pelo amor. “Female Convict 101: Sucks” conjuga, de forma refinadíssima, símbolos e alegorias várias, quando aparentemente teria tudo para ser só mais um exploitation de mulheres na prisão.