Ao pegar no já muito dissecado tema da toxicodependência, “Down to the Bone” arriscava repisar as mais comuns situações associadas ao tópico. Na verdade até as repete, ao seguir de perto os diferentes passos de uma tentativa de desintoxicação, contudo num registo cru e sem truques muito próximo do documentário. Se combater a toxicodependência parece até ser um desafio divertido, no marco geracional que foi “Trainspotting”, o que acontece aqui é precisamente o contrário, já que a realizadora Debra Garnik (senhora de um percurso sólido e com uma novidade em 2018) opta por sublinhar o lado mais angustiante e áspero destas vidas sem conceder espaço a qualquer glamourização. Contribuem para isso também as sensações de pouca esperança e de vazio suburbano que, durante todo o filme, são transmitidas pelas imagens de zonas do estado de Nova Iorque bem afastadas do seu centro cosmopolita (e do glamour, lá está).
Com essa escolha de localização, Garnik salienta a condição marginal destes seus personagens, que nunca deixa de tratar com uma extrema sensibilidade e recorrendo a um tom caloroso próximo do que acompanhava os junkies em “The Panic in Needle Park” (1971), por exemplo. Debra Garnik entende também muito bem a distância que deve preservar perante o exagero e a manipulação de sentimentos para defender a credibilidade deste seu bebé indie. Além de uma soberba Vera Formiga, que mereceu todas as oportunidades desde este seu arrebatador papel, “Down to the Bone” apresenta uma força que pertence apenas aos filmes que conseguem ser tão imprevisíveis quanto a própria vida. Depois dos primeiros quinze minutos, não há como desviar os olhos.