Devil in the flesh (1998)

Durante uma cena particularmente espalhafatosa de “Devil in the flesh”, a minha mãe perguntava:

– Então? O filme é bom?

– Nem por isso.

– Mas não tinhas melhor para ver.

– Sim, tinha, mas por vezes apetece ver estes piores.

A minha mãe ficou baralhada com a resposta, da mesma maneira que ficou uma assistente da MEO quando lhe disse que os Canais TV Cine deviam transmitir filmes ainda piores para valer a pena pagar os 10 paus mensais. A verdade é que existe um conforto especial na oportunidade de ver um filme de aspecto terrível que faz antecipar o pior. Em primeiro lugar porque raramente exige um esforço mental considerável e depois porque é muito capaz de surpreender do que desiludir. Como pode aliás desiludir algo de que esperamos tão pouco? “Devil in the Flesh” explora uma fórmula que acho por acaso irresistível: uma stalker fatal intromete-se na vida de um casal (ou de uma família inteira, se for muito ambiciosa). É um género habitualmente capaz de distrair durante uma hora e meia (mais que isso pode ser doloroso). “Obsessed”, em 2009, tinha Idris Elba e Beyoncé, a enésima variante da intriga da stalker, pouquíssimo sexo (grave nestes casos) e, mesmo assim, era ligeiramente melhor que mau. Não o recomendaria especificamente a ninguém, mas acho que se adequaria ao domingo de qualquer pessoa.

“Devil in the Flesh” é pior que “Obsessed” e claramente mais assombrado pelo fantasma da parvoíce (os seus dois polícias são mais burros que Chief Wiggum e Barbrady). Aqui o papel da stalker cabe a Rose McGowan, numa espécie de conto de fadas modernaço, em que a avó é a bruxa má e o professor desejado veste as calças do príncipe encantado. McGowan reluz em toda a sua sensualidade “bad ass”, mesmo que seja difícil admirá-la numa cena em que mata um cãozinho e cita o Terminator. Isso não acho nada bem. Estávamos habituados a ver McGowan como peixe nestas águas mais trashy, durante os anos em que foi um símbolo da Miramaxploitation, mas nesta produção “straight to vídeo” a actriz parece bastante entediada com a obrigação de ser sexy num filme que depende quase exclusivamente disso. Cansou de ser sexy. Quem não se cansa de dramas trash – em voga desde o fenómeno “The Room” –  poderá eventualmente apreciar a morte precoce da lógica em “Devil in the flesh” ou alguns dos seus cenários mais artificiais. Ninguém aqui parece contudo estar tão drogado como Tommy Wiseau, em “The Room”, e isso é uma pena.

2/10