


Nos dias de hoje a importância da capa no significado de um disco não será certamente nula, mas muito facilmente passa a ser secundária e merecedora de pouca atenção. O artwork de cada novo disco, por mais esmerado que seja, não surte naturalmente o mesmo impacto de outros tempos ao ser tantas vezes visto num quadradinho algures na internet. O ressurgimento do vinil (o formato que mais enaltece o valor da capa) tem devolvido à fachada do álbum alguma da atenção que merece, mas existem variadíssimos símbolos, sugestões e detalhes que permanecem imperceptíveis até que uma capa seja observada e não apenas percorrida entre as muitas distracções online.
Não sei por exemplo lidar com três dos discos de Cat Power – “You Are Free”, “The Greatest” e “Jukebox”- sem que as respectivas capas afectem a relação que tenho com cada um deles. Acho que estaria a desconsiderar uma parte demasiado significante do disco (o seu rosto, no fundo) se não a deixasse influenciar o modo como escuto as canções dentro dele. Aconteceu por acaso escutar “You Are Free” quando leakou e antes de ter visto qualquer parte do seu artwork, e a verdade é que só mesmo depois de olhar para a capa (e assimilando o seu efeito englobante) o disco adquiriu um sentido maior. O título pode até ser “You Are Free”, mas a frase que se lê em letras garrafais na capa é “You Are Cat Power Free”.
Ou seja, só quem quisesse não via ali o anúncio de uma songwriter que, depois de muitos acidentes, declarava que os seus seguidores estavam livres dela como se de uma doença se tratasse (e a obsessão por Cat Power tinha o seu quê de doença). O carácter bilateral desse desate (ou acordo de afastamento) estava logo em baixo implícito na imagem do que aparenta ser Chan Marshall a perder-se no meio do mato (de complicações, onde se perderam também Nick Drake, Cobain ou Elliott Smith, que faleceu no ano de lançamento de “You Are Free”). A própria Cat Power estava também livre de qualquer fardo ou, se quisermos, da responsabilidade de dar de comer a um monstro que se habituou a alimentar apenas de canções tristes. No fundo tudo isto ajuda a que “You Are Free” seja uma última oportunidade para chorar em conjunto antes de cada um ir à sua vida (ela e nós, os seus confidentes). O álbum está carregadíssimo da dor indisfarçável que preenche esse tipo de rituais de despedida. Se compararmos “You Are Free” ao que veio depois, não é difícil entender que a Cat Power (confessional, disposta a mexer na ferida) daquele disco virou-nos as costas para nunca mais voltar.
O significado das luvas penduradas no fio de “The Greatest” será porventura muito mais evidente: estava de regresso para um último combate a lutadora que criou uma lenda com discos profundamente tristes e concertos que mais se assemelhavam a lutas contra si própria. Na capa-convite de “The Greatest”, Cat Power admite, com algum humor, que a sua melhor forma já fazia parte do passado (e quantos têm a coragem de assumir isso?) e que o espectáculo (13 canções) que se seguiria teria o seu quê de evento nostálgico em honra dos bons velhos tempos (que provavelmente não foram assim tão bons). Portanto nada muito diferente de um George Foreman, em idade avançada, a lutar de braços abertos com o que ainda tinha para dar, ou de um combate do Tyson para pagar as contas acumuladas e uns quantos luxos.
Essa aproximação do songwriter à figura do pugilista não era certamente inédita e pode ser encontrada em discos de Mark Kozelek, Van Morrison ou Bill Callahan, entre outros. Se é possível que Callahan estivesse a piscar o olho a Chan Marshall, ao colocar um felino na capa de “Knock Knock”, não é menos possível que as luvas penduradas de “The Greatest” acenem ao Callahan que tantas vezes refere o pugilismo nos seus discos (fê-lo na linda canção “Feather by feather”). O aspecto dourado da capa de “The Greatest” insinua também aquele glamour de última grande noite pós-retiro. A versão em vinil laminado ajuda ainda mais a perceber que Cat Power havia finalmente concedido a si própria o direito de ser uma diva indie da tristeza, quando nenhuma dessa pompa existe nos discos anteriores a este.
Depois de aberta a porta à diva, Chan Marshall assume por completo esse papel em “Jukebox”, um segundo disco de versões, em que esta Cat Power renascida interpreta até um dos temas mais emblemáticos – “Metal Heart” – do seu eu desparecido e mais amargurado. Na capa de “Jukebox”, Chan Marshall apresenta-se finalmente como a pin-up indie que podia ter sido desde sempre (a mulher é absolutamente linda), mas que evitou até aí. Há contudo um constatável conforto nesse novo papel de ícone pop presente na figura multiplicada em diferentes cores, como se pelas mãos de Andy Warhol. O desdobramento colorido de Cat Power não só acontece na capa como também nas canções de um disco que, a não ser o mais risonho, será pelo menos o mais ligeiro na sua carreira. Quando se achava que a gata podia já ter esgotado as sete vidas (e foram precisamente sete os álbuns antes deste), ei-la aqui ressuscitada (depois do grandioso encerramento de “The Greatest”) e com três novas vidas ainda por viver. Um título como “Jukebox” não podia ser mais transparente na forma como estabelece esta nova Cat Power que se veste com o disfarce que cada um desejar e assim canta em troca de uma moeda. Foi-se a Cat Power. Ficaram as muitas Cat Powers.