Com um descaramento e sensacionalismo indissociáveis do exploitation, “Mais ne nous délivrez pas du mal” consegue desenvolver os seus temas – crescimento, ruptura entre gerações, repressão e os seus efeitos – com uma riqueza muito maior que a de tantos filmes semelhantes à partida mais respeitáveis. Fiel à natureza subversiva e maquiavélica do seu próprio argumento, o realizador Joël Séria concebe o filme de 1971 como uma chapada bem dada na face de um conjunto simbólico de adultos entediantes e apáticos. Conjunto esse que surge praticamente adormecido perante a necessidade de dar qualquer tipo de bom exemplo à juventude que haverá de ocupar o seu lugar.
Sem exemplos apelativos ou respeitáveis a seguir, as duas jovens protagonistas, Anne e Lore, optam por adorar o Diabo e desenvolvem o seu satanismo caprichoso durante um verão cheio de episódios. Joël Séria retrata esse período de férias e transição de um modo marcante e várias vezes chocante (mesmo tendo o filme quase 50 anos). Não me admiraria sequer se Haneke estivesse a pensar neste filme quando filmou “Brincadeiras perigosas”. Sem ser definitivamente para todos os gostos, este que foi em tempos conhecido como “o filme francês banido na própria França” é uma peça de cinema peculiar e abundante em ideias para quem se quiser atrever.