O que transformou “Get Out” num fenómeno terá talvez muito mais a ver com as suas implicações sociais e estratégia publicitária do que propriamente com os seus méritos. Ou então escapa-me por completo o que haverá de especial neste filme tonto e com ilusões de grandeza – o tipo de objecto que, nas mãos de um Shyamalan, seria inevitavelmente trucidado pelos fiscais do bom gosto. Acontece que a indústria adora criar sensações a partir de “fresh faces” e a sorte desta vez calhou a Jordan Peele, que até aqui era um rosto (e uma voz) reconhecido pela participação em várias séries de sucesso norte-americanas. Muito provavelmente passa por Peele a explicação para o estranho fenómeno que colocou o seu “Get Out” acima de qualquer mega-disparate de Shyamalan ou de um telefilme pobrezinho a passar na madrugada do Sy Fy (muitas vezes para pessoas adormecidas).
Aprove-se ou não a leitura que “Get Out” arrisca a respeito da actualidade social nos Estados Unidos, essa pertinência (ou a falta dela) e atrevimento não bastam para sustentar um filme (lamento). Aliás, um tema tão inflamável como é o racismo merecia à partida ser tratado com inteligência e ideias consistentes. Fazemos o raio-x de “Get Out” e dificilmente encontramos uma ou outra coisa. Jordan Peele bem tenta – quase desespera – reinventar (ou engrandecer) a fórmula do terror mais trashy, atraindo até ela alguns tópicos polémicos, contudo “Get Out” revela insuficiência em praticamente todos os aspectos. A caracterização de personagens é banal e quase inexistente. Os recursos que utiliza para provocar medo variam entre a estranheza gratuita e desconexa (a empregada Georgina a dizer merdas indecifráveis), e alguns “cat scares” comparáveis a mil outros.
Quando “Get Out” decide colocar as cartas na mesa, e é obrigado a lançar os seus momentos mais exagerados (escalpes cortados e tal), fiquei na dúvida sobre se o filme estaria a “trollar” a seriedade com que o encarei. Como um filme não pode dizer se está a brincar ou não (por vezes isso dava jeito), fiquei na dúvida. Entre toda esta miséria salvam-se um Daniel Kaluuya (no papel principal) bastante convincente a transmitir as sensações de pânico e espanto, e uma primeira fase de construção da atmosfera necessária para este tipo de terror mais cerebral. Quase tudo o resto parece mal desenvolvido, vazio e, pior que tudo, disparatado.