Para quem adorar ver Marianne Faithfull (a cantora das sete vidas), no papel da protagonista Rebecca, a andar de mota, “The Girl on a Motorcyle” será talvez a grande experiência de uma vida. Para as restantes pessoas, além dessas sete, este road movie de Jack Cardiff (cinematógrafo reconhecidíssimo) arrisca ser um objecto curioso indissociável da sua época. Esse apego aos finais da década de sessenta é evidente nesta história de uma rapariga (a do título) que parte em busca de respostas entregando-se à estrada. Era um ímpeto semelhante que colocava os dois viajantes de “Easy Rider” (estreado um ano depois, em 1969) à descoberta de uma América entretanto transformada pela contra-cultura. Enquanto esses se depararam com um país algo perdido nesse conflito interno de mentalidades provocado por guerras externas, esta rapariga na moto recorre à estrada para se libertar do aprisionamento e opressão sexual impostos por um casamento cada vez mais próximo com um suíço sonso e robótico. O refúgio para as angústias dessa relação entediante passa a ser o misto de excitação e liberdade que Rebecca encontra a caminho dos braços do muito mais empolgante amante Daniel (interpretado por Alain Delon com um sex appeal fodido).
Jack Cardiff descreve muito bem as diferenças entre os dois amores ao retratar a Suiça como um lugar particularmente harmonioso e acolhedor, e inversamente a Alemanha (casa de Daniel) como um país muito mais instável e envolvido num ritmo louco. É aliás nesse paralelo estabelecido entre opções amorosas e as descobertas feitas na estrada que “The Girl on a Motorcyle” se revela especialmente rico e inspirado. Tanto mais quando, ao longo do percurso, Rebecca vai-se deparando também com figuras que a abordam de um modo ora abusivo (o guarda negro), ora estranho e invasivo (o homem que enche o depósito da mota numa cena altamente sugestiva), ou simplesmente com um desinteresse enigmático (o guarda queer). Todos eles são partes mais e menos relevantes na configuração da estrada como expositor das mais variadas situações e questões sexuais que se levantam na vida de uma jovem a caminho de se tornar mulher (impossível não recordar a letra de “Bebé”, da Romana).
Repare-se em como, quando chega à Alemanha, Rebecca diz vir à procura de viajar pelas auto-estradas do país (as famosas “autobahns”): vias propícias à aceleração e a uma movimentação mais livre. “The Girl on a Motorcyle” desenvolve constantemente esta espécie de alegorias sem escapar a uma certa ingenuidade em tudo ligada á época. Ingenuidade essa que seria injusto apontar como defeito a um filme de 1968. Muito menos tolerável é reparar no número absurdo de momentos que Jack Cardiff dedica a filmar Marianne Faithfull com cabelos esvoaçantes e a sorrir extasiada pela sensação de percorrer a estrada montada numa motorizada (que afinal é o seu grande e mais perfeito amor). “The Girl on a Motorcycle” está carregadinho desse tipo de imperfeições (ou traços grosseiros de época) e é por vezes bastante aborrecido. Mas ontem apetecia-me dar-lhe um quatro e hoje já o sinto a caminho de um sete com um peso especial.