Countdown (1967)

Nos seus ajustes de contas, o tempo tem sido lento contudo eficaz na validação de Robert Altman como autor de extraordinária visão para as suas ideias – essas que, em primeira instância, foram várias vezes incompreendidas pelo público e até mesmo vetadas pelos estúdios. A lentidão no processo de redescoberta de Robert Altman tem contribuído assim para que “Countdown” permaneça relativamente esquecido na sua filmografia, apesar de envolver actores tão admirados como James Caan e Robert Duvall (ambos impecáveis). Não admira porém que “Countdown” tenha esse estigma de filme amaldiçoado, já que muito sofreu, aquando da sua estreia há cinquenta anos, por apresentar todo um conjunto de aspectos tão incomuns quanto inovadores. Entre esses encontramos, por exemplo, uma demarcação consciente dos desenlaces óbvios (que muito agradam ao público) ou uma ambiguidade de género, que situa “Countdown” entre o melodrama e o suspense criando uma inacreditável compatibilidade entre os dois.

Sendo um filme de Altman (pelo menos até a Warner Bros. o ter afastado do projecto ao dar conta de “vozes sobrepostas” nos diálogos), “Countdown” efectua um complexo retrato panorâmico dos diferentes envolvidos no cerne da narrativa (uma missão espacial rumo à lua). Desse modo, Altman, um crónico defensor da força do “ensemble”, equilibra a importância de boa parte dos seus personagens no quadro em geral (uma prática comum hoje em dia que resultou em pleno na série “The Wire”). Inevitavelmente, aquelas que eram tidas como as características defeituosas ou descabidas de “Countdown”, aquando da sua estreia, hoje revelam ser virtudes muito próprias de um autor que as soube consolidar com especial inteligência (quase matreirice) e atrevimento. Quando achava que o meu santuário Altman já não tinha espaço para mais uma velinha em nome de um filme seu  merecedor de ser reavaliado, eis que aparece “Countdown” para brilhar entre tantos outros.

8/10