Como um enorme arsenal de fogo-de-artifício, que promete mais do que acaba por mostrar ao estoirar no céu, “The Tenth Victim” (“La Decima Vittima”) comporta uma série de aspectos brilhantes e originais que nunca chegam a culminar num filme consistente e sem reticências. A narrativa que o percorre é contudo fascinante e cheia de provocações: num futuro distópico e profundamente cínico, o mundo vive fascinado por um concurso chamado “A Grande Caça”, que torna legal o homicídio através de um sorteio que determina diferentes caçadores e as suas vítimas. As regras do concurso são complexas e servem, no argumento, para dar umas quantas tacadas no nervo de sistemas políticos absolutos e tirânicos (ou não se tratasse de um filme italiano). Uma premissa como esta associada a uma produção de 1965 deixou-me a salivar de imediato.
E tudo corre bem até ao momento em que deixa de correr, ou mais precisamente a partir do ponto em que o realizador Elio Petri tenta impingir um (falso?) clima de romance entre os protagonistas. Esses que são tangencialmente interpretados por Marcello Mastroianni e Ursula Andress, que, apesar de toda a sensualidade que emanam (adoro a descarada exibição das costas da Ursula), parecem geralmente alienados do universo que os envolve. Se isso serve ou não a um ambiente futurista de vácuo espiritual e moral, caberá a cada um decidir. Por aqui ficou a ideia de um filme enriquecido por impressionantes cenários e óptima direcção artística (porque nem só Kubrick soube desenhar futuros esteticamente assombrosos), embora sem pessoas lá dentro. E, por falar em Kubrick, repare-se em como a cena da primeira aparição de Ursula Andress poderá ter influenciado o vídeo “Bad Romance”, da Lady Gaga, quase tanto como “Clockwork Orange”. Sem ser extraordinário, “The Tenth Victim” merece claramente o seu lugar no peculiar género de filmes de caça humana: entre o pai de todos – “The Most Dangerous Game” – e fenómenos mais recentes como “Battle Royale” ou “The Hunger Games” (este nem vi, mas presumo que se enquadre).